A Educação de Jovens e Adultos (EJA) o encanta?
A resposta a esta pergunta carece de um esclarecimento prévio do que posso entender por encantar. Se entendido como um “deslumbrar” que nos assalta sentimentalmente, então, não; a Educação de jovens e adultos não me encantaria, pois acredito que a Educação, e principalmente a EJA, depende de mais que êxtases e belos sentimentos. Agora, se entendermos encantamento como a energia que é capaz de reunir pessoas e recursos em torno de uma idéia, então, sim. Deste modo ela me encanta, ou, se pudermos utilizar um sinônimo que julgo traduzir melhor tal experiência, ela me entusiasma. Este termo, em suas origens na língua grega diz “estar cheio de Deus”; é assim que me sinto, cheio de ânimo por colaborar com esta proposta necessária e transformadora.
Em que medida o envolvimento com a EJA desperta encantamento, emoções e
história de vida?
história de vida?
Minha resposta considerará sua pergunta em três momentos:
a) Em que medida EJA gera encantamento?
Na medida em que (entendendo encantamento como convencionei acima) mobiliza pessoas a fazer coisas que elas sequer sabiam que eram capazes; digo isso tanto do lado do docente quanto do discente. É esse tal entusiasmo que faz com que nós adiemos nossos compromissos aqui no Rio de Janeiro e embarquemos para o alto sertão paraibano, uns dois mil e seiscentos quilômetros distante daqui; trabalhemos em condições às vezes muito precárias (envolvendo instalações e transporte); em contato com gente muito carente. É o mesmo entusiasmo que faz com que o discente, às vezes camponês, trabalhador braçal e morador de zona rural (como é o caso dos municípios no Estado da Paraíba, visitados por nós) esteja ávido em sala de aula por aprender a ler, a escrever e a “dizer sua palavra”. Por fim, o entusiasmo é o que arrebata a ambos, quando discentes e docentes descobrem, cada um a seu modo, que podiam mais do que sabiam.
Um exemplo pode explicar melhor o que quero dizer com esta última frase: No município de Santa Luzia, uma alfabetizadora narrou o caso de um alfabetizando com nome de Humberto, este (um jovem de aproximadamente 27 anos), durante um exercício dado em classe, escreveu um acróstico (um tipo de poesia na qual palavras surgem das letras de uma palavra principal que lhes serve de matriz). Seu escrito ficou tão bom, que logo a turma toda estava em pé junto a sua carteira admirando-o. Daí surgiu o seguinte comentário: “__ Humberto, não sabia que você era poeta!” e, em resposta, Humberto disse: “__Nem eu!” nesta hora aquele indivíduo descobriu, por meio da educação, uma nova possibilidade para si (quem sabe anda descobrindo muitas outras); provavelmente, também, sua alfabetizadora.
b) Em que medida EJA gera emoções?
Quanto às emoções, já disse que só elas não dão conta da tarefa de educar. É preciso lembrar que educar é uma tarefa de emancipação, e isso é fazer com que o outro experimente, em si mesmo, que pode aprender mais do que já sabe; e ao saber mais, colocar-se criticamente frente ao seu mundo, cuidando dos afazeres individuais e reservando seu espaço na sociedade em que se insere. Educar, então, é uma ação social. Concordo que haja nesse ato uma dimensão afetiva, como há também uma dimensão valorativa e outra solidária, mas estas não dispensam a dimensão racional.
Em uma das minhas viagens, aguardava no portão da Universidade (junto às minhas malas) o carro que iria me levar ao aeroporto, quando um colega professor em rápida conversa perguntou-me: “__ O que o colega fazer no Nordeste?” Quando disse lhe que viajaria junto ao programa da Alfabetização Solidária, ele disse: “__É realmente admirável uma pessoa que se dispõe a fazer caridade hoje em dia.” Certamente este professor tem uma compreensão limitada do que é o EJA, e do que é a Educação, mas a compreensão que ele faz delas já é carregada do pressuposto que a tarefa de educar é cheia de sentimento ou emoção. Afinal, caridade (e a comiseração ou piedade que ela envolve) não seria um sentimento?!
Contudo, tenho que concordar que não se envolve com o projeto da EJA quem não está afetivamente tocado, e que ele permite momentos intensos. Na primeira vez que estive na Paraíba (atuando com o programa) tive o privilégio de conhecer algumas salas de alfabetização de jovens e adultos do município de Patos. Os alfabetizandos já estavam esperando “os professores da Universidade do Rio de Janeiro”. Tenho que reconhecer que me emocionei com nossa recepção, pois todos os discentes se levantaram em atitude reverente, com olhos brilhantes e curiosos. Sabia que toda aquela manifestação de respeito, no fundo, não era para comigo nem para com a colega Prof.ª Carla Marina Lobo, mas com aquilo que representávamos, a saber: a possibilidade de autonomia, de uma outra realização, de uma nova possibilidade de ver o mundo... todas essas abertas pela educação.
c) Em que medida EJA gera histórias de vida?
Entendendo história de vida como vivências, diria que, esses temas estão relacionados de diversas maneiras. Paulo Freire, por exemplo, narra a história de vida de um povo e o modo com que uma iniciativa similar a da EJA reconstruiu um país após os conflitos de sua independência. Re-li o livro Cartas à Guine-Bissau durante minhas estadas na Paraíba. Muitos dos depoimentos que ouvi por lá foram registrados (na forma de apontamentos) pelos cantinhos em branco do livro; a ponto mesmo, do meu exemplar tornar-se um “diário de viagens”. Não creio que a EJA gerasse histórias de vida, mas estou convicto que ela ajuda a escrever melhor essas histórias.
O artigo derivado desta entrevista pode ser conferido em:
http://www.cereja.org.br/arquivos_upload/ana_maria_sena_carla_lobo_encantam.pdf

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