quarta-feira, 30 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Gianni Vattimo no "Ano da Itália no Brasil"
O Cenáculo Fluminense de História e Letras, o Blog Literatura-Vivência, com o apoio do Grupo Monaco de Cultura, convidam:
Prosa & Verso - O Globo (1 de outubro de 2011): As ciências humanas segundo Dilthey - No centenário de morte do pensador, livros recuperam sua influente distinção entre investigação técnica e cultural, por Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
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terça-feira, 2 de agosto de 2011
EM DEFESA DA ACADEMIA FLUMINENSE DE LETRAS
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
Membro da Academia Niteroiense de Letras
O estado é o representante da autoridade política exercida sobre a comunidade. Tal órgão representa ainda a garantia de direitos indispensáveis aos cidadãos em sua vida individual e coletiva, dentre os quais estão: a educação, a saúde, a segurança e a cultura. Em contrapartida, a sociedade civil é aquela que desempenha horizontalmente seu papel político de maneira solidária e transformadora dos costumes. Para tanto, serve-se de recursos racionais provenientes do conhecimento técnico-científico, da ética jurídica e da expressividade das artes (dentre as quais se destacam as letras).
No quadro acima seria possível uma relação equilibrada entre a regulação do estado e as ações autônomas da sociedade civil, tênue equilíbrio proporcionado pela busca racional de uma autonomia da vida pública e privada – tal como projetada pela tradição liberal da Modernidade –. Entretanto, parece haver uma tendência de expansão da ação reguladora do estado ao espaço da atuação social, extensão talvez motivada pela falsa impressão de que os princípios da sociedade seriam abstratos e sua expressão pouco significativa. É preciso lembrar, contudo, que é deste segundo segmento que surgem os valores que caracterizam esta comunidade como um todo dotado de identidade social e cultural. Deste mesmo segmento (e das competências cognitivas, práticas e estéticas ali desenvolvidas) surgem os sujeitos e instituições culturais capazes de transformar a sociedade e de pensar livre e criticamente sua relação com o poder público.
Costuma-se chamar de “intelectuais” sujeitos e instituições que não estão comprometidos com o estatal, diligando ambivalentemente no campo da cultura pura e da livre reflexão política. Um exemplo de instituição intelectual é a Academia Fluminense de Letras que, atuando da maneira descrita, contribui com a guarda e o desenvolvimento de nossa cultura letrada, manifestando publicamente sua autoridade específica em favor coletivo sempre que requisitada.
Estabelecida desde 1934 no prédio da Biblioteca Estadual Ministro Geraldo Montedônio Bezerra de Menezes, a AFL ocupa um espaço especialmente projetado para sua sede. Nesta sala (cedida à instituição de acordo com a Lei 2.126, de 7 de novembro de 1927) ocorrem reuniões, atividades administrativas e tem abrigo um precioso acervo bibliográfico. Apesar da lei, do uso e do reconhecimento amplo, a Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, dirigida por Adriana Rattes, cogita desalojar a AFL do espaço que lhe é de direito por lei especial.
Ora, quando uma instituição cultural de reconhecida utilidade pública corre o risco de ter seu espaço vital restringido; quando o funcionamento de uma instituição acadêmico-literária com décadas de serviços prestados se vê ameaçada; quando a atuação do estado vai contra uma legítima representante da sociedade, é hora do engajamento na causa de sua defesa. A palavra “engajamento” reveste-se, aqui, de seus mais autênticos brios. Engajar-se é tomar parte em uma causa que não serve apenas aos interesses particulares de uma academia e de seus acadêmicos, tampouco a uma comunidade letrada. O que está em jogo é a luta pelo interesse de uma instituição pertencente à sociedade fluminense, sociedade que certamente ficaria mais pobre sem a ação desta casa fomentadora de cultura.
Em se tratando de uma instituição pública, uma intervenção popular em sua defesa deve partir dos intelectuais. Seria a hora destes interromperem sua produção cultural para demonstrar sua mestria no trato da questão política. Criticando a ação da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Rio de Janeiro, os intelectuais devem também ser responsáveis por forte mobilização em defesa da referida academia. Por sua vez, também as demais instituições intelectuais precisam defender incondicionalmente a Academia Fluminense de Letras. Não pela exigência burocrática de apoiar aquela cuja posição e importância só estão abaixo da Academia Brasileira de Letras – ABL, mas pelo fato de que o silêncio e a passividade, nesse caso, encorajariam novos atentados contra a existência dessas casas de cultura, desconsiderando suas contribuições, além de seu capital intelectual e simbólico.
Intelectuais, sejam eles sujeitos ou instituições – se de fato são intelectuais! – não podem se furtar ao engajamento na luta em defesa da sede da Academia Fluminense de Letras. Mais que o patrimônio, temos estritamente em jogo a dignidade de uma instituição e, em sentido amplo, a memória, as letras, a cultura e o direito da sociedade fluminense.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
À procura do Lili Leitão teatrólogo.
Luiz Antônio Gondim Leitão (vulgo Lili Leitão) é integrante do movimento literário do Café Paris. Tal movimento, também conhecido como a Roda do Café Paris, é um tesouro cultural fluminense a ser redescoberto.
Num dos cafés da Cidade Sorriso (a, então capital do estado, Niterói), nas primeiras décadas do século XX, boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos e jornalistas escreviam, despretensiosamente, uma página importantíssima de nossa história com as letras. Última trincheira das poesias conservadoras (na época em que a vanguarda modernista já se infiltrava nos meios literários), a turma do Paris reunia, além de Lili Leitão, nomes como: Max Vasconcelos, Gomes Filho, Sylvio Figueiredo, Nestor Tangerini, Kleber de Sá Carvalho, Brasil dos Reis e Trina Fox (também os esporádicos e imiscíveis Alberto de Oliveira, Luiz Pistarini e Gutman Bicho).
Embora fosse catedral da poesia dita rigorosa, na qual românticos e parnasianos celebravam missa, foi justamente no Café Paris, com Lili Leitão, que brotou um estilo de poesia de intuição moderna: poesia satírica que bem poderia ser associada a que Juó Bananère (pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado) já produzia em São Paulo, e que Furnandes Albaralhão (Horácio Mendes Campos) faria do outro lado da Baia de Guanabara. Assim, Lili Leitão se tornaria, ao mesmo tempo, a ovelha negra e o gênio da raça “parisiense”.
São conhecidos dois livros de Lili Leitão. O primeiro, Sonetos, datado de 1913 (e com relançamento agendado para a próxima Bienal do Rio de Janeiro – 2011 – pelo selo da editora Nitpress); o segundo, Vida apertada: Sonetos humorísticos, de 1926 (publicado em uma segunda edição crítica pela mesma Nitpress, em 2009). Atribui-se ainda um terceiro título ao autor, trata-se do controverso Comidas bravas, obra com poesias fesceninas que, segundo o poeta Luís Antônio Pimentel, seria de data intermediária aos dois outros (estima-se 1923). Este livro constitui uma “lenda urbana”, estando extraviado desde aquela época.
Embora Lili tenha se destacado como poeta, sabe-se que o maior êxito de sua carreira foi o teatro de revista. O próprio autor reconheceria isso no poema “Eu”, quase uma epígrafe de seu Vida apertada, quando nele Lili declara: “Sou poeta, burocrata e revisteiro” (p. 57. Grifo do autor). É verdade, a maioria de sua obra está no teatro. Assim, entre 1913 e 1926 (quer dizer, entre Sonetos e Vida apertada) foram encenadas, com relativo sucesso de público, peças como: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá e O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçonne (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924) e O rendez-vous amarelo (1930).
O resgate da literatura de Lili Leitão (e de parte da Roda do Café Paris) carece de uma busca dos textos dessas peças de teatro apenas conhecidas por seus títulos e por anúncios em recortes de jornais de época (como O Fluminense). Fazer ressurgir esta memória é algo que depende de trabalhos como os que vêm sendo elaborados, pacientemente, pelo historiador Emmanuel Bragança de Macedo Soares.
Contudo, ante a absoluta carência de elementos para investigação da obra, solicitamos a todos aqueles que saibam de algum material inédito sobre o teatro de Lili Leitão, bem como da poesia do mesmo autor, que nos notifiquem urgentemente. Caberia, mesmo, uma campanha de busca aos originais das peças de Luiz Leitão. Pedimos, assim, que este apelo seja multiplicado em blogs e sites tornando visível o esforço, quase arqueológico, de retirar o Lili teatrólogo das brumas.
Uma prova do esforço de resgate do teatro de Lili Leitão é dado aqui, no texto inédito, gentil e exclusivamente cedido por Emmanuel Macedo Soares ao Literatura-Vivência:
“Deixando o Cine Teatro Eden, a companhia de Álvaro Diniz inicia a 24 de novembro de 1924 uma vitoriosa temporada no Cinema Coliseu, encerrada intempestivamente a 13 de janeiro do ano seguinte, quando a casa resolve desmanchar o palco para se dedicar apenas à exibição de filmes. A estréia foi fria, com a revista Paris no Rio, de Alfredo Breda, seguindo-se a burleta carnavalesca A flor do tinhorão, de Armando Braga, que também não empolgou, já que o carnaval ainda estava muito longe. Álvaro lembrou do sucesso da revista política O pé de Anjo, de Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt, mas também não deu certo: Pé de anjo era apelido do presidente da República, Artur Bernardes, que há dois anos governava o país sob o chicote do estado de sítio. Trouxe o menino prodígio Petit Encanto, e o público não deu sinais de vida. Todo mundo já vira o garoto, de 8 anos, cuja versatilidade no palco fez efêmera fama nas casas cariocas. O empresário apela para o bairrismo e encena a revista local Não tem importância, de João Carvalhais e Benedito Montes, minhocas da terra. Aí, sim, o teatro começa a lotar. E superlotou a 29 novembro, quando Álvaro descobriu seu veio de ouro, levando à cena a revista Prá cima de muá, de Lili Leitão. Entusiasmado, encomenda outra peça do gênero ao incomparável revisteiro niteroiense. E ele não se faz de rogado, entregando em poucos dias os originais de Niterói em cuecas, que ficou em cartaz desde 17 de dezembro até o melancólico encerramento da temporada. Os cenários de Amadeu Vieira reproduziam vários pontos da cidade, especialmente a Praia de Icaraí, cuja vista ocupava o palco de lado a lado. O grande número de quadros levou o empresário a contratar novos artistas, entre eles Rosália Pombo, Abel Dourado, Júlia Ribeiro, Clotilde Hor Dorgy e Célia Zenatti. Para interpretar os números musicais trouxe um jovem cantor que começava a se destacar nos palcos e paradas carnavalescas, chamado Francisco Alves. Era ainda o Chico Viola das rodas do Estácio e revistas da praça Tiradentes, muito longe de se tornar O Rei da Voz de 1952, quando tragicamente faleceu. Célia Zenatti, companheira no elenco, seria também sua companheira de vida, e por toda a vida.”
(SOARES, Emmanuel de Macedo.
Notas para uma história do teatro em Niterói. Niterói: No prelo)
Vídeo do relançamento de Vida apertada,
na Câmara Municipal de Niterói
(parte I)
Para saber mais, confira outras fontes de blogs e sites parceiros:
domingo, 5 de junho de 2011
Vale a pena escrever?
Cunha e Silva Filho
Até hoje, não sei ao certo (quem há de?) se todo esse esforço de quem escreve serve para alguma coisa. Naturalmente, estou falando da escrita literária em qualquer gênero.
Mundo cansado, pessoas cansadas, tudo leva ao cansaço, inclusive do tédio da vida que se enche cada vez mais das imperfeições inerentes à condição existencial. Olho ao meu redor. O que vejo ou escuto: a falência de quase tudo que faria da vida uma porta do paraíso: guerrilhas no Oriente, terremotos, matanças covardes, sistema econômico-financeiro sobre o qual sempre paira uma ameaça de piora, de estado de incerteza, de ansiedade entre quem compra e quem vende. E mais e mais: inversão de valores, domínio do ter sobre o ser – velha questão filosófica da humanidade - ainda decisiva em tempos atuais.
O saldo das notícias boas é bem desproporcional em relação ao gigantismo das notícias ruins. Assim, descubro algo que não me é nada agradável constatar: o viver passou para algumas pessoas a ser uma espécie de fardo que nem as auto-ajudas ou análises de diferentes correntes psicanalistas conseguem amenizar, nem mesmo as religiões ou a ausência delas. Nesse estado de consciência pessoal, pois é bem provável que esteja acometendo uma fatia menor de indivíduos, o ser em agonia encaminha-se inexoravelmente para a solidão, o “emparedamento” e aí a solidão se torna pouco propícia ao desejo da criação, da invenção, da produção nos diversos campos da inteligência, sobretudo no domínio estetico.
Sabemos que a criação artística tanto pode se originar do sofrimento quanto da felicidade. Porém, há outros componentes que afastam estas duas possibilidades e, ao afastá-las, as impedem de amadurecer, o que seria o estágio próximo de sua transformação em obra literária. Assim como há outras atitudes de artistas, seja de que ramo artístico for, de, num ponto determinado de sua carreira, apenas confessar simplesmente, como o fez uma escritora norte-americana: “ “Cheguei à conclusão de que a vida é mais importante do que havia pensado que a arte fosse. Se a arte me tomou tanto tempo, sinto que a vida é melhor, é tudo que me importa agora”. Desta forma, abandonou em definitivo sua carreira de grande escritora.
No Brasil, há o caso de Radauan Nassar, autor de talento com o seu romance Lavoura arcaica, que deixou a literatura para se dedicar a uma atividade prática. Há outros exemplos semelhantes ao dele, como há também autores que, só longo tempo depois, já aposentados, que resolvem escrever alguma obra.
Continuar escrevendo ou deixar de fazê-lo, ficaria assim, dependendo de uma decisão íntima, até inexplicável ou inconfessável. Entendo que o ato da escrita só vale a pena na medida em que essa atividade dê prazer ao leitor ou o faça pensar melhor, ou lhe abra caminhos de um consciência crítica que ao mesmo tempo seja acompanhada de cumplicidade com essa ação persuasiva, ou seja, escrever algo que mereça esse empenho.
Escrever é o ato mais pessoal que possa haver entre a pessoa do escritor e o público que o lê. Ato, portanto, de exposição, de desnudamento em certos sentidos. Nunca, no entanto, pode ser meramente gratuito, narcisista, auto-centrado. Ao contrário, a escrita é um fenômeno que se produz e carrega em si um elemento fundamental - o desejo de ser aceito, de ser julgado honestamente, sem o qual sua importância se esvazia. É da aceitação, do feedback, do estímulo que vive o escritor. Não haveria escritor que não desse atenção a esse elemento ainda quando esse artista da palavra seja um ser em desespero material ou espiritualmente considerado.
A escrita, e aqui aludo à de natureza ficcional, necessita desse estado permanente de transmitir mensagens, quer através de suas visões da existência proporcionada pela narrativa ( o mundo e tudo o que o cerca e dele faz parte, o Cosmos), quer pelo mergulho denso no mundo interior e exterior dos seus personae, quer, enfim, de também sentir as pulsações (tão necessárias) do leitores. A recepção lhe é vital. Essa vitalidade vem justamente das ressonâncias positivas do leitor.
Não existe escritor que escreva para si mesmo. O ato da criação artística é essencialmente social, interativo, gregário naquele sentido de que o fenômeno estético opera num espaço comunicativo regido pela transitividade, espaço de interlocução que não sobrevive pela recusa do agente criador diante da vontade soberana da comunhão com o leitor.
Os casos de escritores que não são dados à publicidade são raros e se tornam até matéria de excentricidades. O ato apenas da escrita pressupõe a lógica do diálogo e da mencionada transitividade. A validade da escrita, todavia, sua continuidade ou sua interrupção muitas vezes escapam ao nosso entendimento. Ficará pertencendo aos arcanos insondáveis somente acessíveis ao autor da escrita que se despediu dos leitores.
Até hoje, não sei ao certo (quem há de?) se todo esse esforço de quem escreve serve para alguma coisa. Naturalmente, estou falando da escrita literária em qualquer gênero.
Mundo cansado, pessoas cansadas, tudo leva ao cansaço, inclusive do tédio da vida que se enche cada vez mais das imperfeições inerentes à condição existencial. Olho ao meu redor. O que vejo ou escuto: a falência de quase tudo que faria da vida uma porta do paraíso: guerrilhas no Oriente, terremotos, matanças covardes, sistema econômico-financeiro sobre o qual sempre paira uma ameaça de piora, de estado de incerteza, de ansiedade entre quem compra e quem vende. E mais e mais: inversão de valores, domínio do ter sobre o ser – velha questão filosófica da humanidade - ainda decisiva em tempos atuais.
O saldo das notícias boas é bem desproporcional em relação ao gigantismo das notícias ruins. Assim, descubro algo que não me é nada agradável constatar: o viver passou para algumas pessoas a ser uma espécie de fardo que nem as auto-ajudas ou análises de diferentes correntes psicanalistas conseguem amenizar, nem mesmo as religiões ou a ausência delas. Nesse estado de consciência pessoal, pois é bem provável que esteja acometendo uma fatia menor de indivíduos, o ser em agonia encaminha-se inexoravelmente para a solidão, o “emparedamento” e aí a solidão se torna pouco propícia ao desejo da criação, da invenção, da produção nos diversos campos da inteligência, sobretudo no domínio estetico.
Sabemos que a criação artística tanto pode se originar do sofrimento quanto da felicidade. Porém, há outros componentes que afastam estas duas possibilidades e, ao afastá-las, as impedem de amadurecer, o que seria o estágio próximo de sua transformação em obra literária. Assim como há outras atitudes de artistas, seja de que ramo artístico for, de, num ponto determinado de sua carreira, apenas confessar simplesmente, como o fez uma escritora norte-americana: “ “Cheguei à conclusão de que a vida é mais importante do que havia pensado que a arte fosse. Se a arte me tomou tanto tempo, sinto que a vida é melhor, é tudo que me importa agora”. Desta forma, abandonou em definitivo sua carreira de grande escritora.
No Brasil, há o caso de Radauan Nassar, autor de talento com o seu romance Lavoura arcaica, que deixou a literatura para se dedicar a uma atividade prática. Há outros exemplos semelhantes ao dele, como há também autores que, só longo tempo depois, já aposentados, que resolvem escrever alguma obra.
Continuar escrevendo ou deixar de fazê-lo, ficaria assim, dependendo de uma decisão íntima, até inexplicável ou inconfessável. Entendo que o ato da escrita só vale a pena na medida em que essa atividade dê prazer ao leitor ou o faça pensar melhor, ou lhe abra caminhos de um consciência crítica que ao mesmo tempo seja acompanhada de cumplicidade com essa ação persuasiva, ou seja, escrever algo que mereça esse empenho.
Escrever é o ato mais pessoal que possa haver entre a pessoa do escritor e o público que o lê. Ato, portanto, de exposição, de desnudamento em certos sentidos. Nunca, no entanto, pode ser meramente gratuito, narcisista, auto-centrado. Ao contrário, a escrita é um fenômeno que se produz e carrega em si um elemento fundamental - o desejo de ser aceito, de ser julgado honestamente, sem o qual sua importância se esvazia. É da aceitação, do feedback, do estímulo que vive o escritor. Não haveria escritor que não desse atenção a esse elemento ainda quando esse artista da palavra seja um ser em desespero material ou espiritualmente considerado.
A escrita, e aqui aludo à de natureza ficcional, necessita desse estado permanente de transmitir mensagens, quer através de suas visões da existência proporcionada pela narrativa ( o mundo e tudo o que o cerca e dele faz parte, o Cosmos), quer pelo mergulho denso no mundo interior e exterior dos seus personae, quer, enfim, de também sentir as pulsações (tão necessárias) do leitores. A recepção lhe é vital. Essa vitalidade vem justamente das ressonâncias positivas do leitor.
Não existe escritor que escreva para si mesmo. O ato da criação artística é essencialmente social, interativo, gregário naquele sentido de que o fenômeno estético opera num espaço comunicativo regido pela transitividade, espaço de interlocução que não sobrevive pela recusa do agente criador diante da vontade soberana da comunhão com o leitor.
Os casos de escritores que não são dados à publicidade são raros e se tornam até matéria de excentricidades. O ato apenas da escrita pressupõe a lógica do diálogo e da mencionada transitividade. A validade da escrita, todavia, sua continuidade ou sua interrupção muitas vezes escapam ao nosso entendimento. Ficará pertencendo aos arcanos insondáveis somente acessíveis ao autor da escrita que se despediu dos leitores.
Centenário de nascimento de Afrânio Coutinho e algumas reflexões à parte
Cunha e Silva Filho
Assisti, ontem, dia 30, a uma homenagem prestada a Afrânio Coutinho numa dos auditórios do Instituto de Letras da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Comemorava-se data do centenário do seu nascimento. O escritor e Membro da Academia Brasileira de Letras nasceu em Salvador, Bahia, em 1911 e faleceu no Rio de Janeiro em 2000.
Foi convidado pelo Departamento de Letras daquela universidade a fim de fazer uma palestra alusiva à data o filho do escritor, Eduardo de Faria Coutinho, professor titular PH.D de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A apresentação do palestrante coube ao ensaísta e professor Roberto Acízelo de Souza, lecionando hoje na UERJ. Acízelo, segundo relatou no evento, foi aluno de Afrânio Coutinho décadas atrás.
Eduardo Coutinho, por sinal, conhecia de vista nos meados dos anos sessenta quando éramos alunos de graduação no curso de letras da conceituada Faculdade Nacional de Filosofia. Só depois, cheguei a conhecê-lo mais de perto. É pessoa educada e acatado ensaísta e pesquisador na sua área. Fez mestrado e doutorado em universidades americanas de renome. Por conseguinte, ninguém mais indicado para fazer uma exposição sobre o papel sobranceiro que seu dileto pai representou para os estudos literários universitários no país.
Na palestra que de improviso fez (embora tenha afirmado que havia preparado um texto) para um auditório lotado, Eduardo Coutinho revelou abalizado conhecimento da vida profissional do pai e ressaltou, pelo menos, três aspectos que justificariam o respeito e a admiração que gerações de estudantes de letras dispensavam a Afrânio Coutinho. Muitos desses ex-alunos se tornaram também, como o próprio filho, eminentes professores do nosso ensino superior.
O primeiro aspecto diz respeito ao pioneirismo da ação pedagógica exercida pelo critico, historiador literário e ensaísta Afrânio Coutinho ao divulgar, no meio acadêmico-universitário, o chamado new criticism, de procedência norte-americana logo que o crítico regressou ao país e retomou sua atividade docente. Sem dúvida alguma, a novidade de abordagem crítica repercutiu como divisor de águas entre o que os estudos literários eram até então e o que começaram a ser daí por diante.
Com seus estudos realizados na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, aproveitando sua permanência de 1942 a 1947, Afrânio Coutinho pôde entrar em contato com grandes mestres norte-americanos e europeus com os quais desenvolveu sólida formação teórica nos domínios da teoria literária, historiografia literária e crítica literária. Foi lá que conheceu o teórico René Wellek, Roman Jakobson. Com o primeiro fez amizade e manteve correspondência.
Coutinho, como diretor da Faculdade Letras da UFRJ, no final da década de sessenta e início de setenta, convidou, em diferentes oportunidades, aqueles dois scholars a proferirem conferências no auditório daquela faculdade quando ainda se localizava precariamente na Avenida Chile, Centro do Rio de Janeiro.
De posse dessa formação em bases atuais, de regresso ao país, Afrânio Coutinho procurou reestruturar o nosso ensino de literatura e métodos de análises e interpretação da obra literária hauridos nos Estados Unidos. Por certo encontrou vários obstáculos para que suas idéias se materializassem.
Afrânio Coutinho era formado em medicina, porém nunca exerceu efetivamente essa atividade, porquanto sua vocação, ainda quando estudante de medicina, o dirigia aos estudos literários e históricos, chegando mesmo a lecionar, em Salvador, no curso secundário, literatura e história Já em 1941 fora convidado a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.
Sobretudo após a estadia na América, sua carreira docente deslanchou, pois, já em 1947, foi estabelecer-se no Rio de Janeiro quando o nomearam catedrático interino do Colégio Pedro II na disciplina literatura. Em 1951, faz concurso para catedrático efetivo de literatura daquela instituição de ensino defendendo a tese Aspectos da literatura barroca, estudo que lhe deu notoriedade e que, nos anos futuros, o tornaria um respeitado especialista, até mesmo no exterior como citação bibliográfica na conhecida obra Teoria da literatura de René Wellek e Austin Warren e na indispensável obra Teoria literária de Vítor Manuel de Aguiar e Silva.
Em 1951, ainda foi professor da Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette e nela fundou a cadeira de Teoria e Técnica Literária sendo pioneiro na implantação dessa disciplina no país.
Em 1958, prestou concurso para livre docente de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil que, depois, passou a denominar-se Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com a livre docência, obteve o título de doutor em letras clássicas e vernáculas. Aposentando-se Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) da cátedra de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1963, Coutinho tornou-se professor catedrático interino daquela disciplina. Em 1965, Afrânio Coutinho foi aprovado em concurso para professor catedrático efetivo, preenchendo, assim, a vaga deixada por Alceu Amoroso Lima. Sua carreira de professor universitário estava agora consolidada só se interrompendo com a sua aposentadoria em 1980.
É preciso não esquecer que essa ação pedagógica visando a mudar práticas conservadoras no ensino de literatura e na crítica literária no país não se fez pacificamente. Coutinho ganhou desafetos notadamente no âmbito da crítica literária. Sua veemência revestida do propósito de divulgar os princípios e métodos do new criticism não deu trégua a seus opositores. Polemizou desabridamente com Álvaro Lins, conforme se pode ver da leitura do livro No hospital das letras (1963).
Entretanto, tanto Álvaro Lins quanto Afrânio Coutinho constituem duas personalidades de intelectuais que deram uma forte contribuição à cultura brasileira. Por terem formação intelectual diversa, embora fossem contemporâneos cronologicamente, infelizmente, exageraram e cometeram injustiças mútuas no desforço polêmico que só o tempo e o distanciamento poderão ser melhor compreendidos em seus papéis e nas suas respectivas visões crítico-teóricas. Álvaro Lins tipificou um modelo de crítico de formação humanística com um impressionismo original e de grande vocação para o julgamento de obras.
Por outro lado, Afrânio Coutinho representa a reação crítica ao mau impressionismo, sobretudo baseado no chamado “achismo” no julgamento de obras. O new critcism, sem desprezar completamente os aspectos subsidiários da obra, fundamentados no contexto histórico-social-biográfico, desloca a atenção do analista da obra para os seus elementos constituintes, de base supostamente científica, assentados no objeto da análise da obra, ou seja, na autonomia do texto literário que somente o conhecimento teórico pode propiciar ao crítico: a linguagem, o conhecimento interno de que se compõe uma obra, o exame de suas partes, sua visão da vida, suas técnicas suas estratégias, sua formalização em gêneros, suas especificidades estilísticas, ou como resumiria T.S. Elliot, a autonomia do fenômeno literário é o pilar primordial do entendimento da obra ( apud Martin Gray) Quer dizer, ao historicismo prevalente da crítica tradicional preferiu-se a close reading, na qual o texto seja visto como uma estrutura em que as partes formadoras de uma obra permaneçam num estado de “tensão de paradoxo”, ‘ironia” e “ambiguidade”, “palavras”, símbolos, “imagens” (Martins Gray, ibidem)
É bem verdade que, no caso de Álvaro Lins, com rigor, não poderíamos rotulá-lo de “impressionista”, mas de um crítico em permanente inquietação com novas aberturas e perspectivas de tratar o fenômeno literário., i.e., um critico arguto “...muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral” (Alfredo Bosi).
Álvaro Lins não abomina o new criticism anglo-americano Ele se indispunha contra o exagero de alguns seguidores dessa corrente crítica, os quais passaram a dar uma sensação de que a obra literária seja um objeto que possa ser dissecado com frieza e excesso de cientificismo, meramente como uma abordagem mecanicista que afastasse o crítico, o professor de literatura, e o leitor do que, mais tarde, já no período pós-estruturalismo, alguns teóricos (à frente Todorov) chamariam de análise dissociada do “prazer da leitura”.
Afrânio Coutinho era homem de temperamento forte e combativo, mas capaz de atitudes reconhecidamente humanas e corajosas – sobretudo quando diretor da Faculdade de Letras nos anos difíceis da ditadura militar. Não poucas vezes lidando com agentes da repressão, sempre que possível, procurou proteger alunos ideologicamente adversários da ditadura implantada ao país.
O segundo aspecto digno de anotação na carreira de Afrânio Coutinho foi seu pertinaz trabalho de educador e de organizador da vida acadêmica universitária. Nesse ponto, seu esforço foi igualmente notável. Conseguiu desmembrar o curso de letras da Faculdade Nacional de Filosofia transformando-o em Faculdade de Letras da UFRJ, com a ajuda, conforme assinou Eduardo Coutinho na palestra, de professores como Celso Cunha, Thiers Martins Moreira e outros. Isso foi uma decisão nova e original no ensino de letras do Rio de Janeiro que provavelmente deve ter se alastrado por outras regiões do país. Em suas muitas viagens ao exterior ( Estados Unidos, Alemanha e França), países nos quais também foi professor visitante, Afrânio Coutinho examinou minuciosamente as estruturas burocráticas e curriculares de cursos de humanidades que resultaram na formação de Faculdade de Letras naqueles lugares visitados. Daí, pois, aquele desejo de aqui implantar uma faculdade de letras.
Claro é que nessa mudança burocrático-administrativa muita coisa deixou, no inicio, a desejar, sobretudo na infraestrutura parte burocrática, como, por exemplo, a questão da implantação de créditos, os períodos de inscrição nos cursos que, por vezes, prejudicavam a vida acadêmica de alunos que não dispunham de horário integral para fazer o curso, atrasando-os no itens cruciais que são a conclusão dos créditos para a obtenção dos diplomas de bacharelado e licenciatura.
Contudo, no plano pedagógico, como diretor da Faculdade de Letras, o professor Afrânio Coutinho revelou-se sempre dinâmico e progressista, compensando, desse modo, deficiências pontuais de natureza burocrática.. Exemplo disso foi a criação dos cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado, os quais obrigavam,, pela necessidade de sua continuidade e aperfeiçoamento, os próprios professores da Faculdade de Letras, que ainda não tinham mestrado pelo menos, a fazerem o mestrado e doutorado, ou mesmo, em alguns casos, a procurarem realizar tais cursos no exterior. Com os anos, os cursos de pós-graduação stricto sensu, coordenados por ele, se tornaram um centro de alta qualidade no país. Realizações como essas só dignificam a trajetória bem-sucedida de Afrânio Coutinho na vida acadêmica brasileira, em especial no âmbito dos estudos e ensino de literatura. Finalmente, foi também de sua iniciativa a criação da Biblioteca a Faculdade de Letras, considerada hoje a melhor de que o Rio de Janeiro dispõe na área de humanidades.
Seu dinamismo intelectual também se refletiu no plano pessoal, como é exemplo a dedicação e amor aos livros (segundo seu filho, era um leitor voraz), reunindo, ao longo da vida, uma quantidade assombrosa de obras, de documentos, de arquivos, pastas, manuscritos que ia adquirindo e que se transformou numa das mais preciosas bibliotecas particulares. Foi dessa biblioteca, de seu valioso acervo, que fundou a sua Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), espaço cultural destinado a uma multiplicidade de eventos culturais, com maior ênfase para a divulgação e conhecimento da literatura brasileira. Com a sua morte, em 2000, a biblioteca pessoa do escritor foi vendida e incorporada à Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Nada mais justo que o fundador da Faculdade de Letras, pelo menos no plano material, se juntasse ao seu espaço de direito e de fato.
O terceiro aspecto da vida desse crítico e educador está fortemente conexionado com a sua produção literária e às suas iniciativas de poder legar à posteridade relevantes realizações no campo editorial. Foi ele quem dirigiu, orientou e planejou a ambiciosa obra Literatura no Brasil, em seis volumes (1968-1971), trabalho empreendido por uma equipe de especialistas de diversas orientações críticas, precedido cada volume de uma introdução do organizador. Essas várias introduções lhe renderam uma das melhores obras de sua produção intelectual, que é a Introdução à literatura brasileira, já traduzida para o inglês e o espanhol. Sobressai nesta obra a riqueza da bibliografia criteriosamente selecionada pelo autor, bibliografia abrangente, atualizada e fonte de consulta obrigatória para o estudioso de letras.De sua produção ressaltaria a obra A tradição afortunada, os seus estudos do Barroco, a Coleção Fortuna Crítica por ele dirigida e editada pela Civilização Brasileira, reunindo importantes textos críticos escritos por grandes nomes da literatura brasileira, além de incluir introdução ao volume, cronologia da vida e obra do autor selecionado e bibliografia ativa e passiva. Mencionaria ainda a sua prestimosa e utilíssima Enciclopédia de literatura brasileira, em 2 volumes (2001)
Sua atividade de crítico militante e combativo na imprensa (Diário de Notícias, Última hora, em livros e revistas especializadas foi fecunda e incessante. Seus diversos ensaios críticos merecem ainda ser lidos e pesquisados por estudiosos da literatura brasileira e, last but not least, seus criteriosos trabalhos de organizador de edições críticas de diversos escritores brasileiros do passado que, com suas judiciosas introduções, compõem um retrato intelectual desse escritor que, durante toda a existência, se empenhou, de corpo e alma, na defesa dos valores estéticos da produção literária brasileira, de um ensino atualizado e da profissão e valorização do professor brasileiro em todos os níveis.Seu centenário de nascimento é digno de comemoração e sua obra está ainda a merecer justificada atenção da intelectualidade brasileira.
Referências:
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 38 ed. Cultrix: São Paulo, 2001, p. 491-492
GRAY, Martin. A dictionary of literary terms. Second Edition, 3rd impression, 1994,. Longman York Press, p. 195-196.
LINS, Álvaro. Teoria literária. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970, p. 119-150.
Foi convidado pelo Departamento de Letras daquela universidade a fim de fazer uma palestra alusiva à data o filho do escritor, Eduardo de Faria Coutinho, professor titular PH.D de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A apresentação do palestrante coube ao ensaísta e professor Roberto Acízelo de Souza, lecionando hoje na UERJ. Acízelo, segundo relatou no evento, foi aluno de Afrânio Coutinho décadas atrás.
Eduardo Coutinho, por sinal, conhecia de vista nos meados dos anos sessenta quando éramos alunos de graduação no curso de letras da conceituada Faculdade Nacional de Filosofia. Só depois, cheguei a conhecê-lo mais de perto. É pessoa educada e acatado ensaísta e pesquisador na sua área. Fez mestrado e doutorado em universidades americanas de renome. Por conseguinte, ninguém mais indicado para fazer uma exposição sobre o papel sobranceiro que seu dileto pai representou para os estudos literários universitários no país.
Na palestra que de improviso fez (embora tenha afirmado que havia preparado um texto) para um auditório lotado, Eduardo Coutinho revelou abalizado conhecimento da vida profissional do pai e ressaltou, pelo menos, três aspectos que justificariam o respeito e a admiração que gerações de estudantes de letras dispensavam a Afrânio Coutinho. Muitos desses ex-alunos se tornaram também, como o próprio filho, eminentes professores do nosso ensino superior.
O primeiro aspecto diz respeito ao pioneirismo da ação pedagógica exercida pelo critico, historiador literário e ensaísta Afrânio Coutinho ao divulgar, no meio acadêmico-universitário, o chamado new criticism, de procedência norte-americana logo que o crítico regressou ao país e retomou sua atividade docente. Sem dúvida alguma, a novidade de abordagem crítica repercutiu como divisor de águas entre o que os estudos literários eram até então e o que começaram a ser daí por diante.
Com seus estudos realizados na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, aproveitando sua permanência de 1942 a 1947, Afrânio Coutinho pôde entrar em contato com grandes mestres norte-americanos e europeus com os quais desenvolveu sólida formação teórica nos domínios da teoria literária, historiografia literária e crítica literária. Foi lá que conheceu o teórico René Wellek, Roman Jakobson. Com o primeiro fez amizade e manteve correspondência.
Coutinho, como diretor da Faculdade Letras da UFRJ, no final da década de sessenta e início de setenta, convidou, em diferentes oportunidades, aqueles dois scholars a proferirem conferências no auditório daquela faculdade quando ainda se localizava precariamente na Avenida Chile, Centro do Rio de Janeiro.
De posse dessa formação em bases atuais, de regresso ao país, Afrânio Coutinho procurou reestruturar o nosso ensino de literatura e métodos de análises e interpretação da obra literária hauridos nos Estados Unidos. Por certo encontrou vários obstáculos para que suas idéias se materializassem.
Afrânio Coutinho era formado em medicina, porém nunca exerceu efetivamente essa atividade, porquanto sua vocação, ainda quando estudante de medicina, o dirigia aos estudos literários e históricos, chegando mesmo a lecionar, em Salvador, no curso secundário, literatura e história Já em 1941 fora convidado a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.
Sobretudo após a estadia na América, sua carreira docente deslanchou, pois, já em 1947, foi estabelecer-se no Rio de Janeiro quando o nomearam catedrático interino do Colégio Pedro II na disciplina literatura. Em 1951, faz concurso para catedrático efetivo de literatura daquela instituição de ensino defendendo a tese Aspectos da literatura barroca, estudo que lhe deu notoriedade e que, nos anos futuros, o tornaria um respeitado especialista, até mesmo no exterior como citação bibliográfica na conhecida obra Teoria da literatura de René Wellek e Austin Warren e na indispensável obra Teoria literária de Vítor Manuel de Aguiar e Silva.
Em 1951, ainda foi professor da Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette e nela fundou a cadeira de Teoria e Técnica Literária sendo pioneiro na implantação dessa disciplina no país.
Em 1958, prestou concurso para livre docente de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil que, depois, passou a denominar-se Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com a livre docência, obteve o título de doutor em letras clássicas e vernáculas. Aposentando-se Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) da cátedra de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1963, Coutinho tornou-se professor catedrático interino daquela disciplina. Em 1965, Afrânio Coutinho foi aprovado em concurso para professor catedrático efetivo, preenchendo, assim, a vaga deixada por Alceu Amoroso Lima. Sua carreira de professor universitário estava agora consolidada só se interrompendo com a sua aposentadoria em 1980.
É preciso não esquecer que essa ação pedagógica visando a mudar práticas conservadoras no ensino de literatura e na crítica literária no país não se fez pacificamente. Coutinho ganhou desafetos notadamente no âmbito da crítica literária. Sua veemência revestida do propósito de divulgar os princípios e métodos do new criticism não deu trégua a seus opositores. Polemizou desabridamente com Álvaro Lins, conforme se pode ver da leitura do livro No hospital das letras (1963).
Entretanto, tanto Álvaro Lins quanto Afrânio Coutinho constituem duas personalidades de intelectuais que deram uma forte contribuição à cultura brasileira. Por terem formação intelectual diversa, embora fossem contemporâneos cronologicamente, infelizmente, exageraram e cometeram injustiças mútuas no desforço polêmico que só o tempo e o distanciamento poderão ser melhor compreendidos em seus papéis e nas suas respectivas visões crítico-teóricas. Álvaro Lins tipificou um modelo de crítico de formação humanística com um impressionismo original e de grande vocação para o julgamento de obras.
Por outro lado, Afrânio Coutinho representa a reação crítica ao mau impressionismo, sobretudo baseado no chamado “achismo” no julgamento de obras. O new critcism, sem desprezar completamente os aspectos subsidiários da obra, fundamentados no contexto histórico-social-biográfico, desloca a atenção do analista da obra para os seus elementos constituintes, de base supostamente científica, assentados no objeto da análise da obra, ou seja, na autonomia do texto literário que somente o conhecimento teórico pode propiciar ao crítico: a linguagem, o conhecimento interno de que se compõe uma obra, o exame de suas partes, sua visão da vida, suas técnicas suas estratégias, sua formalização em gêneros, suas especificidades estilísticas, ou como resumiria T.S. Elliot, a autonomia do fenômeno literário é o pilar primordial do entendimento da obra ( apud Martin Gray) Quer dizer, ao historicismo prevalente da crítica tradicional preferiu-se a close reading, na qual o texto seja visto como uma estrutura em que as partes formadoras de uma obra permaneçam num estado de “tensão de paradoxo”, ‘ironia” e “ambiguidade”, “palavras”, símbolos, “imagens” (Martins Gray, ibidem)
É bem verdade que, no caso de Álvaro Lins, com rigor, não poderíamos rotulá-lo de “impressionista”, mas de um crítico em permanente inquietação com novas aberturas e perspectivas de tratar o fenômeno literário., i.e., um critico arguto “...muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral” (Alfredo Bosi).
Álvaro Lins não abomina o new criticism anglo-americano Ele se indispunha contra o exagero de alguns seguidores dessa corrente crítica, os quais passaram a dar uma sensação de que a obra literária seja um objeto que possa ser dissecado com frieza e excesso de cientificismo, meramente como uma abordagem mecanicista que afastasse o crítico, o professor de literatura, e o leitor do que, mais tarde, já no período pós-estruturalismo, alguns teóricos (à frente Todorov) chamariam de análise dissociada do “prazer da leitura”.
Afrânio Coutinho era homem de temperamento forte e combativo, mas capaz de atitudes reconhecidamente humanas e corajosas – sobretudo quando diretor da Faculdade de Letras nos anos difíceis da ditadura militar. Não poucas vezes lidando com agentes da repressão, sempre que possível, procurou proteger alunos ideologicamente adversários da ditadura implantada ao país.
O segundo aspecto digno de anotação na carreira de Afrânio Coutinho foi seu pertinaz trabalho de educador e de organizador da vida acadêmica universitária. Nesse ponto, seu esforço foi igualmente notável. Conseguiu desmembrar o curso de letras da Faculdade Nacional de Filosofia transformando-o em Faculdade de Letras da UFRJ, com a ajuda, conforme assinou Eduardo Coutinho na palestra, de professores como Celso Cunha, Thiers Martins Moreira e outros. Isso foi uma decisão nova e original no ensino de letras do Rio de Janeiro que provavelmente deve ter se alastrado por outras regiões do país. Em suas muitas viagens ao exterior ( Estados Unidos, Alemanha e França), países nos quais também foi professor visitante, Afrânio Coutinho examinou minuciosamente as estruturas burocráticas e curriculares de cursos de humanidades que resultaram na formação de Faculdade de Letras naqueles lugares visitados. Daí, pois, aquele desejo de aqui implantar uma faculdade de letras.
Claro é que nessa mudança burocrático-administrativa muita coisa deixou, no inicio, a desejar, sobretudo na infraestrutura parte burocrática, como, por exemplo, a questão da implantação de créditos, os períodos de inscrição nos cursos que, por vezes, prejudicavam a vida acadêmica de alunos que não dispunham de horário integral para fazer o curso, atrasando-os no itens cruciais que são a conclusão dos créditos para a obtenção dos diplomas de bacharelado e licenciatura.
Contudo, no plano pedagógico, como diretor da Faculdade de Letras, o professor Afrânio Coutinho revelou-se sempre dinâmico e progressista, compensando, desse modo, deficiências pontuais de natureza burocrática.. Exemplo disso foi a criação dos cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado, os quais obrigavam,, pela necessidade de sua continuidade e aperfeiçoamento, os próprios professores da Faculdade de Letras, que ainda não tinham mestrado pelo menos, a fazerem o mestrado e doutorado, ou mesmo, em alguns casos, a procurarem realizar tais cursos no exterior. Com os anos, os cursos de pós-graduação stricto sensu, coordenados por ele, se tornaram um centro de alta qualidade no país. Realizações como essas só dignificam a trajetória bem-sucedida de Afrânio Coutinho na vida acadêmica brasileira, em especial no âmbito dos estudos e ensino de literatura. Finalmente, foi também de sua iniciativa a criação da Biblioteca a Faculdade de Letras, considerada hoje a melhor de que o Rio de Janeiro dispõe na área de humanidades.
Seu dinamismo intelectual também se refletiu no plano pessoal, como é exemplo a dedicação e amor aos livros (segundo seu filho, era um leitor voraz), reunindo, ao longo da vida, uma quantidade assombrosa de obras, de documentos, de arquivos, pastas, manuscritos que ia adquirindo e que se transformou numa das mais preciosas bibliotecas particulares. Foi dessa biblioteca, de seu valioso acervo, que fundou a sua Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), espaço cultural destinado a uma multiplicidade de eventos culturais, com maior ênfase para a divulgação e conhecimento da literatura brasileira. Com a sua morte, em 2000, a biblioteca pessoa do escritor foi vendida e incorporada à Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Nada mais justo que o fundador da Faculdade de Letras, pelo menos no plano material, se juntasse ao seu espaço de direito e de fato.
O terceiro aspecto da vida desse crítico e educador está fortemente conexionado com a sua produção literária e às suas iniciativas de poder legar à posteridade relevantes realizações no campo editorial. Foi ele quem dirigiu, orientou e planejou a ambiciosa obra Literatura no Brasil, em seis volumes (1968-1971), trabalho empreendido por uma equipe de especialistas de diversas orientações críticas, precedido cada volume de uma introdução do organizador. Essas várias introduções lhe renderam uma das melhores obras de sua produção intelectual, que é a Introdução à literatura brasileira, já traduzida para o inglês e o espanhol. Sobressai nesta obra a riqueza da bibliografia criteriosamente selecionada pelo autor, bibliografia abrangente, atualizada e fonte de consulta obrigatória para o estudioso de letras.De sua produção ressaltaria a obra A tradição afortunada, os seus estudos do Barroco, a Coleção Fortuna Crítica por ele dirigida e editada pela Civilização Brasileira, reunindo importantes textos críticos escritos por grandes nomes da literatura brasileira, além de incluir introdução ao volume, cronologia da vida e obra do autor selecionado e bibliografia ativa e passiva. Mencionaria ainda a sua prestimosa e utilíssima Enciclopédia de literatura brasileira, em 2 volumes (2001)
Sua atividade de crítico militante e combativo na imprensa (Diário de Notícias, Última hora, em livros e revistas especializadas foi fecunda e incessante. Seus diversos ensaios críticos merecem ainda ser lidos e pesquisados por estudiosos da literatura brasileira e, last but not least, seus criteriosos trabalhos de organizador de edições críticas de diversos escritores brasileiros do passado que, com suas judiciosas introduções, compõem um retrato intelectual desse escritor que, durante toda a existência, se empenhou, de corpo e alma, na defesa dos valores estéticos da produção literária brasileira, de um ensino atualizado e da profissão e valorização do professor brasileiro em todos os níveis.Seu centenário de nascimento é digno de comemoração e sua obra está ainda a merecer justificada atenção da intelectualidade brasileira.
Referências:
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 38 ed. Cultrix: São Paulo, 2001, p. 491-492
GRAY, Martin. A dictionary of literary terms. Second Edition, 3rd impression, 1994,. Longman York Press, p. 195-196.
LINS, Álvaro. Teoria literária. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970, p. 119-150.
domingo, 29 de maio de 2011
Entrevista concedida aos alunos de Pedagogia da Universidade Anhanguera
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) o encanta?
A resposta a esta pergunta carece de um esclarecimento prévio do que posso entender por encantar. Se entendido como um “deslumbrar” que nos assalta sentimentalmente, então, não; a Educação de jovens e adultos não me encantaria, pois acredito que a Educação, e principalmente a EJA, depende de mais que êxtases e belos sentimentos. Agora, se entendermos encantamento como a energia que é capaz de reunir pessoas e recursos em torno de uma idéia, então, sim. Deste modo ela me encanta, ou, se pudermos utilizar um sinônimo que julgo traduzir melhor tal experiência, ela me entusiasma. Este termo, em suas origens na língua grega diz “estar cheio de Deus”; é assim que me sinto, cheio de ânimo por colaborar com esta proposta necessária e transformadora.
Em que medida o envolvimento com a EJA desperta encantamento, emoções e
história de vida?
história de vida?
Minha resposta considerará sua pergunta em três momentos:
a) Em que medida EJA gera encantamento?
Na medida em que (entendendo encantamento como convencionei acima) mobiliza pessoas a fazer coisas que elas sequer sabiam que eram capazes; digo isso tanto do lado do docente quanto do discente. É esse tal entusiasmo que faz com que nós adiemos nossos compromissos aqui no Rio de Janeiro e embarquemos para o alto sertão paraibano, uns dois mil e seiscentos quilômetros distante daqui; trabalhemos em condições às vezes muito precárias (envolvendo instalações e transporte); em contato com gente muito carente. É o mesmo entusiasmo que faz com que o discente, às vezes camponês, trabalhador braçal e morador de zona rural (como é o caso dos municípios no Estado da Paraíba, visitados por nós) esteja ávido em sala de aula por aprender a ler, a escrever e a “dizer sua palavra”. Por fim, o entusiasmo é o que arrebata a ambos, quando discentes e docentes descobrem, cada um a seu modo, que podiam mais do que sabiam.
Um exemplo pode explicar melhor o que quero dizer com esta última frase: No município de Santa Luzia, uma alfabetizadora narrou o caso de um alfabetizando com nome de Humberto, este (um jovem de aproximadamente 27 anos), durante um exercício dado em classe, escreveu um acróstico (um tipo de poesia na qual palavras surgem das letras de uma palavra principal que lhes serve de matriz). Seu escrito ficou tão bom, que logo a turma toda estava em pé junto a sua carteira admirando-o. Daí surgiu o seguinte comentário: “__ Humberto, não sabia que você era poeta!” e, em resposta, Humberto disse: “__Nem eu!” nesta hora aquele indivíduo descobriu, por meio da educação, uma nova possibilidade para si (quem sabe anda descobrindo muitas outras); provavelmente, também, sua alfabetizadora.
b) Em que medida EJA gera emoções?
Quanto às emoções, já disse que só elas não dão conta da tarefa de educar. É preciso lembrar que educar é uma tarefa de emancipação, e isso é fazer com que o outro experimente, em si mesmo, que pode aprender mais do que já sabe; e ao saber mais, colocar-se criticamente frente ao seu mundo, cuidando dos afazeres individuais e reservando seu espaço na sociedade em que se insere. Educar, então, é uma ação social. Concordo que haja nesse ato uma dimensão afetiva, como há também uma dimensão valorativa e outra solidária, mas estas não dispensam a dimensão racional.
Em uma das minhas viagens, aguardava no portão da Universidade (junto às minhas malas) o carro que iria me levar ao aeroporto, quando um colega professor em rápida conversa perguntou-me: “__ O que o colega fazer no Nordeste?” Quando disse lhe que viajaria junto ao programa da Alfabetização Solidária, ele disse: “__É realmente admirável uma pessoa que se dispõe a fazer caridade hoje em dia.” Certamente este professor tem uma compreensão limitada do que é o EJA, e do que é a Educação, mas a compreensão que ele faz delas já é carregada do pressuposto que a tarefa de educar é cheia de sentimento ou emoção. Afinal, caridade (e a comiseração ou piedade que ela envolve) não seria um sentimento?!
Contudo, tenho que concordar que não se envolve com o projeto da EJA quem não está afetivamente tocado, e que ele permite momentos intensos. Na primeira vez que estive na Paraíba (atuando com o programa) tive o privilégio de conhecer algumas salas de alfabetização de jovens e adultos do município de Patos. Os alfabetizandos já estavam esperando “os professores da Universidade do Rio de Janeiro”. Tenho que reconhecer que me emocionei com nossa recepção, pois todos os discentes se levantaram em atitude reverente, com olhos brilhantes e curiosos. Sabia que toda aquela manifestação de respeito, no fundo, não era para comigo nem para com a colega Prof.ª Carla Marina Lobo, mas com aquilo que representávamos, a saber: a possibilidade de autonomia, de uma outra realização, de uma nova possibilidade de ver o mundo... todas essas abertas pela educação.
c) Em que medida EJA gera histórias de vida?
Entendendo história de vida como vivências, diria que, esses temas estão relacionados de diversas maneiras. Paulo Freire, por exemplo, narra a história de vida de um povo e o modo com que uma iniciativa similar a da EJA reconstruiu um país após os conflitos de sua independência. Re-li o livro Cartas à Guine-Bissau durante minhas estadas na Paraíba. Muitos dos depoimentos que ouvi por lá foram registrados (na forma de apontamentos) pelos cantinhos em branco do livro; a ponto mesmo, do meu exemplar tornar-se um “diário de viagens”. Não creio que a EJA gerasse histórias de vida, mas estou convicto que ela ajuda a escrever melhor essas histórias.
O artigo derivado desta entrevista pode ser conferido em:
http://www.cereja.org.br/arquivos_upload/ana_maria_sena_carla_lobo_encantam.pdf
sábado, 28 de maio de 2011
Protesto justo
Cunha e Silva Filho
O problema da vida de apertura financeira do professorado brasileiro estadual ou municipal é crônico, talvez secular, com curtos períodos, no passado, de melhoria salarial, dependendo das boas graças dos governadores e prefeitos de plantão. O velho crítico José Veríssimo(1857-1916), comentando, em artigo, a situação da educação nacional no seu tempo, já denunciava o estado deficiente no qual se encontravam as escolas públicas do país, as carências dos cursos normais, as parcas condições materiais,entre outros males do ensino.
No magistério público estadual fluminense lecionei durante uns dezoito anos; na rede municipal, vinte e nove anos. Em ambos os casos, a remuneração dos docentes foi geralmente irrisória, chegando mesmo a ser aviltante, sendo que a rede estadual ainda remunerava pior do que a municipal, ou seja, a da prefeitura do Rio de Janeiro. Essa realidade continua praticamente inalterável e sem perspectiva de melhoria significativa. Ao contrário, por exemplo, na Prefeitura, o atual prefeito acena com um projeto que, segundo o Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro, pretende mexer com os proventos dos aposentados e de pensionistas, fato que já está mobilizando os professores para lutarem contra essas medidas que não acenam para uma melhora dos salários mas para redução deles, o que é um projeto ilegal e imoral, uma vez que salários não podem ser reduzidos.Não se poderá aceitar um proposta indecente como esta.
Tanto no passado quanto hoje um professor estadual ou municipal que trabalhem para o sustento de sua família não daria conta das despesas básicas mensais. Para viver com um pouquinho de dignidade teria que contar, se casado, com a renda da esposa na hipótese de ela também trabalhar. Contudo, sozinho, seus rendimentos, mesmo com duas matrículas, não lhe permitiriam sequer alugar um modestíssimo apartamento ou uma casinha simples no subúrbio. Uma outra alternativa, seria o professor complementar com mais duas ou três jornadas de trabalho em escolas particulares.Ainda assim, ganharia rendimentos insatisfatórios e perderia, logo sua saúde trabalhando a semana inteira e dando, ao todo, cerca de sessenta aulas ou mais. O resultado desse enorme esforço físico e intelectual produz dois problemas: perda da saúde e queda de qualidade de suas aulas. Onde iria preparar as aulas, preparar e corrigir provas, atualizar-se em seminários e cursos de pós-graduação? Só uns poucos conseguem superar tremendas dificuldades. Não me envergonho de afirmar : fui um exemplo desse tipo de professor.
Sei de exemplos de professores que, desejando fazer contrato de aluguel, passaram por constrangimentos quando mal anunciavam ao “senhorio” a profissão que exerciam. “Professor?!” dizia o energúmeno. “Nada feito. Não alugo pra professor, vocês não têm renda compatível.. Vão morar na periferia!” Vergonha nacional para um país que dá as costas ao professorado, não o valorizando, como seria de esperar de um país sério que cuida bem da sua educação.
Ontem, vendo um canal de TV, me deparei com um comovente protesto de uma muito jovem professora do estado de Alagoas. Seu nome: Amanda. Com um “pitoresco” sotaque nordestino, como diria o romancista Érico Veríssimo(1905-1975), a professora, diante das câmeras, expõe com veemência e justa indignação a atual situação da vida de um educador brasileiro no seu estado natal e, por extensão, no país inteiro.
A fala de Amanda, que também se veiculou no vasto circuito da Internet – esse é o lado bom e democrático desta mídia -, foi um eloquente apelo às autoridades brasileiras a fim de que responsáveis mais imediatos para assuntos da educação promovam uma mudança substancial e definitiva no que tange à questão dos salários dos professores estaduais e municipais.
Nessa conjuntura, o governo federal tem a obrigação de, junto com as autoridades estaduais e municipais, equacionar, em curto prazo, melhorias aos docentes, a começar pela implantação de planos de carreira que não fiquem no papel mas que sejam logo postos em prática e tenham continuidade, reajustando-se periodicamente de acordo com os aumentos concedidos às demais categorias de funcionários públicos a fim de não perderem seus ganhos reais e nem fiquem novamente defasados em situações de aumentos decorrentes de inflação.
Todos os segmentos interligados ao Ministério da Educação (MEC), os governadores e prefeitos, os representantes da classe dos professores em toda a Federação, assim como o poder legislativo estadual e municipal, têm o dever cívico de buscar uma saída honrosa para tratarem da deplorável situação do ensino fundamental e médio quanto à questão salarial dos docentes e da sua valorização ante a sociedade. No governo federal, o ensino público, sobretudo no segundo mandato do presidente Lula, conseguiu dar maior dignidade à carreira do magistério, sobretudo valorizando os professores empenhados em adquirir maior qualificação através de cursos de alto nível como os de mestrado e doutorado.
A professora Amanda, pela atitude corajosa e patriota demonstrada, serve de modelo de profissional que não se cala diante do descaso de sucessivos governos estaduais e municipais, inclusive os que estão cumprindo os atuais mandatos, que pouco têm feito pela carreira do magistério. Tais governantes ainda não se conscientizaram de que sem uma educação de qualidade e com professores estimulados e competentes, o país não dará nunca nenhum salto importante em direção aos seus projetos de se tornar uma potência mundial nos diversos setores de atividades : na ciência, na tecnologia, no aperfeiçoamento da mão de obra, na demanda por profissionais competitivos que estejam em condições de responderem às exigências de um mundo em constantes mudanças. Vejam o que ocorreu com países desenvolvidos como a China e o Japão, países que deram prioridade ao ensino e à educação de seus filhos.
A jovem professora Amanda relata um fato lamentável sob todos os aspectos e que ainda mais sujeita o docente brasileiro à humilhação. Contou ela que um promotor público da sua cidade achou absurdo que professores de escolas publicas sejam beneficiados com a merenda escolar destinada aos alunos. A atitude do promotor peca por duas razões: a) revela um sentimento de mesquinharia do ponto de vista de humanidade que deveria antes nele prevalecer; b) não atenta para a circunstância de que o professor brasileiro, pessimamente remunerado, muitas vezes não tem condições e mesmo tempo de fazer suas refeições fora da escola devido à exiguidade dos horários. Não são algumas refeições a mais que comprometeriam a merenda escolar. Por que não tem esse promotor a coragem de reclamar que militares, em serviço nos quartéis, tenham direito à alimentação? Ou por que os governos estaduais e municipais não concedem ao docente vale-transporte e vale-refeição, como faz a iniciativa privada? Ele, o promotor, age assim porque tem seu excelente salário e não sofre as agruras e aflitivos percalços do desvalorizado professor brasileiro.
O discurso inflamado de Amanda, acredito, transmitido pela imensa audiência da WEB, há de ser, conforme ela própria acentuou, com a grandeza e a esperança peculiar aos jovens, uma pequena semente que com certeza frutificará sensibilizando nossas autoridades de ensino e da educação.
É mister ressaltar, com todo vigor, que verbas existem para a educação. Se não as houvesse, não teríamos passado pelo desprazer e pela decepção de tomar conhecimento ultimamente de dois clamorosos desperdícios do dinheiro público: os milhões destinados ao chamado “Kit Gay” e outros milhões custeando livros didáticos que ensinam jovens e adultos a não terem o direito de acesso à norma culta da língua portuguesa.
http://asideiasnotempo.blogspot.com/search?updated-min=2011-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2012-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&max-results=43
O problema da vida de apertura financeira do professorado brasileiro estadual ou municipal é crônico, talvez secular, com curtos períodos, no passado, de melhoria salarial, dependendo das boas graças dos governadores e prefeitos de plantão. O velho crítico José Veríssimo(1857-1916), comentando, em artigo, a situação da educação nacional no seu tempo, já denunciava o estado deficiente no qual se encontravam as escolas públicas do país, as carências dos cursos normais, as parcas condições materiais,entre outros males do ensino.
No magistério público estadual fluminense lecionei durante uns dezoito anos; na rede municipal, vinte e nove anos. Em ambos os casos, a remuneração dos docentes foi geralmente irrisória, chegando mesmo a ser aviltante, sendo que a rede estadual ainda remunerava pior do que a municipal, ou seja, a da prefeitura do Rio de Janeiro. Essa realidade continua praticamente inalterável e sem perspectiva de melhoria significativa. Ao contrário, por exemplo, na Prefeitura, o atual prefeito acena com um projeto que, segundo o Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro, pretende mexer com os proventos dos aposentados e de pensionistas, fato que já está mobilizando os professores para lutarem contra essas medidas que não acenam para uma melhora dos salários mas para redução deles, o que é um projeto ilegal e imoral, uma vez que salários não podem ser reduzidos.Não se poderá aceitar um proposta indecente como esta.
Tanto no passado quanto hoje um professor estadual ou municipal que trabalhem para o sustento de sua família não daria conta das despesas básicas mensais. Para viver com um pouquinho de dignidade teria que contar, se casado, com a renda da esposa na hipótese de ela também trabalhar. Contudo, sozinho, seus rendimentos, mesmo com duas matrículas, não lhe permitiriam sequer alugar um modestíssimo apartamento ou uma casinha simples no subúrbio. Uma outra alternativa, seria o professor complementar com mais duas ou três jornadas de trabalho em escolas particulares.Ainda assim, ganharia rendimentos insatisfatórios e perderia, logo sua saúde trabalhando a semana inteira e dando, ao todo, cerca de sessenta aulas ou mais. O resultado desse enorme esforço físico e intelectual produz dois problemas: perda da saúde e queda de qualidade de suas aulas. Onde iria preparar as aulas, preparar e corrigir provas, atualizar-se em seminários e cursos de pós-graduação? Só uns poucos conseguem superar tremendas dificuldades. Não me envergonho de afirmar : fui um exemplo desse tipo de professor.
Sei de exemplos de professores que, desejando fazer contrato de aluguel, passaram por constrangimentos quando mal anunciavam ao “senhorio” a profissão que exerciam. “Professor?!” dizia o energúmeno. “Nada feito. Não alugo pra professor, vocês não têm renda compatível.. Vão morar na periferia!” Vergonha nacional para um país que dá as costas ao professorado, não o valorizando, como seria de esperar de um país sério que cuida bem da sua educação.
Ontem, vendo um canal de TV, me deparei com um comovente protesto de uma muito jovem professora do estado de Alagoas. Seu nome: Amanda. Com um “pitoresco” sotaque nordestino, como diria o romancista Érico Veríssimo(1905-1975), a professora, diante das câmeras, expõe com veemência e justa indignação a atual situação da vida de um educador brasileiro no seu estado natal e, por extensão, no país inteiro.
A fala de Amanda, que também se veiculou no vasto circuito da Internet – esse é o lado bom e democrático desta mídia -, foi um eloquente apelo às autoridades brasileiras a fim de que responsáveis mais imediatos para assuntos da educação promovam uma mudança substancial e definitiva no que tange à questão dos salários dos professores estaduais e municipais.
Nessa conjuntura, o governo federal tem a obrigação de, junto com as autoridades estaduais e municipais, equacionar, em curto prazo, melhorias aos docentes, a começar pela implantação de planos de carreira que não fiquem no papel mas que sejam logo postos em prática e tenham continuidade, reajustando-se periodicamente de acordo com os aumentos concedidos às demais categorias de funcionários públicos a fim de não perderem seus ganhos reais e nem fiquem novamente defasados em situações de aumentos decorrentes de inflação.
Todos os segmentos interligados ao Ministério da Educação (MEC), os governadores e prefeitos, os representantes da classe dos professores em toda a Federação, assim como o poder legislativo estadual e municipal, têm o dever cívico de buscar uma saída honrosa para tratarem da deplorável situação do ensino fundamental e médio quanto à questão salarial dos docentes e da sua valorização ante a sociedade. No governo federal, o ensino público, sobretudo no segundo mandato do presidente Lula, conseguiu dar maior dignidade à carreira do magistério, sobretudo valorizando os professores empenhados em adquirir maior qualificação através de cursos de alto nível como os de mestrado e doutorado.
A professora Amanda, pela atitude corajosa e patriota demonstrada, serve de modelo de profissional que não se cala diante do descaso de sucessivos governos estaduais e municipais, inclusive os que estão cumprindo os atuais mandatos, que pouco têm feito pela carreira do magistério. Tais governantes ainda não se conscientizaram de que sem uma educação de qualidade e com professores estimulados e competentes, o país não dará nunca nenhum salto importante em direção aos seus projetos de se tornar uma potência mundial nos diversos setores de atividades : na ciência, na tecnologia, no aperfeiçoamento da mão de obra, na demanda por profissionais competitivos que estejam em condições de responderem às exigências de um mundo em constantes mudanças. Vejam o que ocorreu com países desenvolvidos como a China e o Japão, países que deram prioridade ao ensino e à educação de seus filhos.
A jovem professora Amanda relata um fato lamentável sob todos os aspectos e que ainda mais sujeita o docente brasileiro à humilhação. Contou ela que um promotor público da sua cidade achou absurdo que professores de escolas publicas sejam beneficiados com a merenda escolar destinada aos alunos. A atitude do promotor peca por duas razões: a) revela um sentimento de mesquinharia do ponto de vista de humanidade que deveria antes nele prevalecer; b) não atenta para a circunstância de que o professor brasileiro, pessimamente remunerado, muitas vezes não tem condições e mesmo tempo de fazer suas refeições fora da escola devido à exiguidade dos horários. Não são algumas refeições a mais que comprometeriam a merenda escolar. Por que não tem esse promotor a coragem de reclamar que militares, em serviço nos quartéis, tenham direito à alimentação? Ou por que os governos estaduais e municipais não concedem ao docente vale-transporte e vale-refeição, como faz a iniciativa privada? Ele, o promotor, age assim porque tem seu excelente salário e não sofre as agruras e aflitivos percalços do desvalorizado professor brasileiro.
O discurso inflamado de Amanda, acredito, transmitido pela imensa audiência da WEB, há de ser, conforme ela própria acentuou, com a grandeza e a esperança peculiar aos jovens, uma pequena semente que com certeza frutificará sensibilizando nossas autoridades de ensino e da educação.
É mister ressaltar, com todo vigor, que verbas existem para a educação. Se não as houvesse, não teríamos passado pelo desprazer e pela decepção de tomar conhecimento ultimamente de dois clamorosos desperdícios do dinheiro público: os milhões destinados ao chamado “Kit Gay” e outros milhões custeando livros didáticos que ensinam jovens e adultos a não terem o direito de acesso à norma culta da língua portuguesa.
http://asideiasnotempo.blogspot.com/search?updated-min=2011-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2012-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&max-results=43
Intelectuais Fluminenses prestigiam Marco Lucchesi
A presença de Marco Lucchesi na Academia Brasileira de Letras é um fato para ser intensamente festejado. Não por falar 18 idiomas e ter se tornado o mais jovem acadêmico da ABL, mas por ser, acima de tudo, um intelectual honesto, sem jaça, terno e humilde, a par de brilhante poeta, ensaísta e tradutor. Para nós, fluminenses, é motivo de grande orgulho ver chegar ao olimpo da intelectualidade brasileira um concidadão de Itacoatiara que não esconde o reconhecimento pelas influências recebidas na atmosfera do Calçadão da Cultura, de Carlos Mônaco e sua Livraria Ideal, e do meio literário de Niterói, cidade em que vive desde os oito anos de idade.
Acho difícil encontrar outro escritor brasileiro impregnado da universalidade de Marco Lucchesi. Parece haver compreendido desde cedo, em toda a sua amplitude, o conselho de Tolstoi: “Para ser universal, basta cantar a sua aldeia”. Lucchesi cantou muito mais do que a sua aldeia, tendo passeado ao longo de sua carreira literária por fascinantes caminhos da Europa e do mundo árabe, cujos mistérios parecem tocá-lo profundamente. Porém, sem jamais perder a identidade e o vínculo com a terra que o entreteu, como deixou claro nos agradecimentos ao final de seu discurso de posse na ABL ao lembrar o apoio dado, no início de sua jornada, por Alberto Torres, de O Fluminense, jornal em que publicou seu primeiro artigo, aos 15 anos.
A intelectualidade fluminense prestigiou em grande número e incontido júbilo a posse de Lucchesi na ABL, na última sexta-feira. Lá estava Carlos Mônaco, acompanhado de Roberto Kahlmeyer-Mertens, organizador do livro Conversações com intelectuais fluminenses, com depoimento do próprio Lucchesi, a ser lançado brevemente pela Nitpress. Presentes também Nina Rita, proprietária do jornal O Fluminense; os presidentes do Cenáculo Fluminense de História e Letras, Júlio Vani, e da Academia Niteroiense de Letras, Márcia Pessanha; o artista plástico Israel Pedrosa e João Cândido Portinari, curador da obra de seu pai, o grande Portinari; e vários outros jornalistas, escritores e artistas.
Registro a seguir alguns momentos daquela noite marcante, vários deles clicados por Aldo Pessanha. Outro registro fotográfico da noite, mais completo do que este, pode ser visto no ótimo blog Literatura-Vivência, de Kahlmeyer-Mertens. Recomendo, ainda, a leitura do artigo de Faustino Teixeira sobre Lucchesi no blog Diálogos.
Acho difícil encontrar outro escritor brasileiro impregnado da universalidade de Marco Lucchesi. Parece haver compreendido desde cedo, em toda a sua amplitude, o conselho de Tolstoi: “Para ser universal, basta cantar a sua aldeia”. Lucchesi cantou muito mais do que a sua aldeia, tendo passeado ao longo de sua carreira literária por fascinantes caminhos da Europa e do mundo árabe, cujos mistérios parecem tocá-lo profundamente. Porém, sem jamais perder a identidade e o vínculo com a terra que o entreteu, como deixou claro nos agradecimentos ao final de seu discurso de posse na ABL ao lembrar o apoio dado, no início de sua jornada, por Alberto Torres, de O Fluminense, jornal em que publicou seu primeiro artigo, aos 15 anos.
A intelectualidade fluminense prestigiou em grande número e incontido júbilo a posse de Lucchesi na ABL, na última sexta-feira. Lá estava Carlos Mônaco, acompanhado de Roberto Kahlmeyer-Mertens, organizador do livro Conversações com intelectuais fluminenses, com depoimento do próprio Lucchesi, a ser lançado brevemente pela Nitpress. Presentes também Nina Rita, proprietária do jornal O Fluminense; os presidentes do Cenáculo Fluminense de História e Letras, Júlio Vani, e da Academia Niteroiense de Letras, Márcia Pessanha; o artista plástico Israel Pedrosa e João Cândido Portinari, curador da obra de seu pai, o grande Portinari; e vários outros jornalistas, escritores e artistas.
Registro a seguir alguns momentos daquela noite marcante, vários deles clicados por Aldo Pessanha. Outro registro fotográfico da noite, mais completo do que este, pode ser visto no ótimo blog Literatura-Vivência, de Kahlmeyer-Mertens. Recomendo, ainda, a leitura do artigo de Faustino Teixeira sobre Lucchesi no blog Diálogos.
Livros de Filosofia
KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Filosofia Primeira - Estudos sobre Heidegger e outros autores. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 2005. pp. 180.
KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Tempo e caminho - Fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Publit, 2006. pp. 80.
KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Verdade-Metafísica-poesia. Niterói, Nitpress, 2007. pp. 100.
KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Opúsculos. Niterói: Nitpress, 2008. pp. 55.
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