domingo, 29 de maio de 2011

Entrevista concedida aos alunos de Pedagogia da Universidade Anhanguera



A Educação de Jovens e Adultos (EJA) o encanta?

A resposta a esta pergunta carece de um esclarecimento prévio do que posso entender por encantar. Se entendido como um “deslumbrar” que nos assalta sentimentalmente, então, não; a Educação de jovens e adultos não me encantaria, pois acredito que a Educação, e principalmente a EJA, depende de mais que êxtases e belos sentimentos. Agora, se entendermos encantamento como a energia que é capaz de reunir pessoas e recursos em torno de uma idéia, então, sim. Deste modo ela me encanta, ou, se pudermos utilizar um sinônimo que julgo traduzir melhor tal experiência, ela me entusiasma. Este termo, em suas origens na língua grega diz “estar cheio de Deus”; é assim que me sinto, cheio de ânimo por colaborar com esta proposta necessária e transformadora.   

Em que medida o envolvimento com a EJA desperta encantamento, emoções e
história de vida?

Minha resposta considerará sua pergunta em três momentos:

a) Em que medida EJA gera encantamento?

Na medida em que (entendendo encantamento como convencionei acima) mobiliza pessoas a fazer coisas que elas sequer sabiam que eram capazes; digo isso tanto do lado do docente quanto do discente. É esse tal entusiasmo que faz com que nós adiemos nossos compromissos aqui no Rio de Janeiro e embarquemos para o alto sertão paraibano, uns dois mil e seiscentos quilômetros distante daqui; trabalhemos em condições às vezes muito precárias (envolvendo instalações e transporte); em contato com gente muito carente. É o mesmo entusiasmo que faz com que o discente, às vezes camponês, trabalhador braçal e morador de zona rural (como é o caso dos municípios no Estado da Paraíba, visitados por nós) esteja ávido em sala de aula por aprender a ler, a escrever e a “dizer sua palavra”. Por fim, o entusiasmo é o que arrebata a ambos, quando discentes e docentes descobrem, cada um a seu modo, que podiam mais do que sabiam.
Um exemplo pode explicar melhor o que quero dizer com esta última frase: No município de Santa Luzia, uma alfabetizadora narrou o caso de um alfabetizando com nome de Humberto, este (um jovem de aproximadamente 27 anos), durante um exercício dado em classe, escreveu um acróstico (um tipo de poesia na qual palavras surgem das letras de uma palavra principal que lhes serve de matriz). Seu escrito ficou tão bom, que logo a turma toda estava em pé junto a sua carteira admirando-o. Daí surgiu o seguinte comentário: “__ Humberto, não sabia que você era poeta!” e, em resposta, Humberto disse: “__Nem eu!” nesta hora aquele indivíduo descobriu, por meio da educação, uma nova possibilidade para si (quem sabe anda descobrindo muitas outras); provavelmente, também, sua alfabetizadora.

b) Em que medida EJA gera emoções?

Quanto às emoções, já disse que elas não dão conta da tarefa de educar. É preciso lembrar que educar é uma tarefa de emancipação, e isso é fazer com que o outro experimente, em si mesmo, que pode aprender mais do que já sabe; e ao saber mais, colocar-se criticamente frente ao seu mundo, cuidando dos afazeres individuais e reservando seu espaço na sociedade em que se insere. Educar, então, é uma ação social. Concordo que haja nesse ato uma dimensão afetiva, como há também uma dimensão valorativa e outra solidária, mas estas não dispensam a dimensão racional.
Em uma das minhas viagens, aguardava no portão da Universidade (junto às minhas malas) o carro que iria me levar ao aeroporto, quando um colega professor em rápida conversa perguntou-me: “__ O que o colega fazer no Nordeste?” Quando disse lhe que viajaria junto ao programa da Alfabetização Solidária, ele disse: “__É realmente admirável uma pessoa que se dispõe a fazer caridade hoje em dia.” Certamente este professor tem uma compreensão limitada do que é o EJA, e do que é a Educação, mas a compreensão que ele faz delas já é carregada do pressuposto que a tarefa de educar é cheia de sentimento ou emoção. Afinal, caridade (e a comiseração ou piedade que ela envolve) não seria um sentimento?!
Contudo, tenho que concordar que não se envolve com o projeto da EJA quem não está afetivamente tocado, e que ele permite momentos intensos. Na primeira vez que estive na Paraíba (atuando com o programa) tive o privilégio de conhecer algumas salas de alfabetização de jovens e adultos do município de Patos. Os alfabetizandos já estavam esperando “os professores da Universidade do Rio de Janeiro”. Tenho que reconhecer que me emocionei com nossa recepção, pois todos os discentes se levantaram em atitude reverente, com olhos brilhantes e curiosos. Sabia que toda aquela manifestação de respeito, no fundo, não era para comigo nem para com a colega Prof.ª Carla Marina Lobo, mas com aquilo que representávamos, a saber: a possibilidade de autonomia, de uma outra realização, de uma nova possibilidade de ver o mundo... todas essas abertas pela educação.

   c) Em que medida EJA gera histórias de vida?

Entendendo história de vida como vivências, diria que, esses temas estão relacionados de diversas maneiras. Paulo Freire, por exemplo, narra a história de vida de um povo e o modo com que uma iniciativa similar a da EJA reconstruiu um país após os conflitos de sua independência. Re-li o livro Cartas à Guine-Bissau durante minhas estadas na Paraíba. Muitos dos depoimentos que ouvi por lá foram registrados (na forma de apontamentos) pelos cantinhos em branco do livro; a ponto mesmo, do meu exemplar tornar-se um “diário de viagens”. Não creio que a EJA gerasse histórias de vida, mas estou convicto que ela ajuda a escrever melhor essas histórias. 

O artigo derivado desta entrevista pode ser conferido em:
http://www.cereja.org.br/arquivos_upload/ana_maria_sena_carla_lobo_encantam.pdf

sábado, 28 de maio de 2011

Protesto justo

Cunha e Silva Filho


O problema da vida de apertura financeira do professorado brasileiro estadual ou municipal é crônico, talvez secular, com curtos períodos, no passado, de melhoria salarial, dependendo das boas graças dos governadores e prefeitos de plantão. O velho crítico José Veríssimo(1857-1916), comentando, em artigo, a situação da educação nacional no seu tempo, já denunciava o estado deficiente no qual se encontravam as escolas públicas do país, as carências dos cursos normais, as parcas condições materiais,entre outros males do ensino.
No magistério público estadual fluminense lecionei durante uns dezoito anos; na rede municipal, vinte e nove anos. Em ambos os casos, a remuneração dos docentes foi geralmente irrisória, chegando mesmo a ser aviltante, sendo que a rede estadual ainda remunerava pior do que a municipal, ou seja, a da prefeitura do Rio de Janeiro. Essa realidade continua praticamente inalterável e sem perspectiva de melhoria significativa. Ao contrário, por exemplo, na Prefeitura, o atual prefeito acena com um projeto que, segundo o Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro, pretende mexer com os proventos dos aposentados e de pensionistas, fato que já está mobilizando os professores para lutarem contra essas medidas que não acenam para uma melhora dos salários mas para redução deles, o que é um projeto ilegal e imoral, uma vez que salários não podem ser reduzidos.Não se poderá aceitar um proposta indecente como esta.
Tanto no passado quanto hoje um professor estadual ou municipal que trabalhem para o sustento de sua família não daria conta das despesas básicas mensais. Para viver com um pouquinho de dignidade teria que contar, se casado, com a renda da esposa na hipótese de ela também trabalhar. Contudo, sozinho, seus rendimentos, mesmo com duas matrículas, não lhe permitiriam sequer alugar um modestíssimo apartamento ou uma casinha simples no subúrbio. Uma outra alternativa, seria o professor complementar com mais duas ou três jornadas de trabalho em escolas particulares.Ainda assim, ganharia rendimentos insatisfatórios e perderia, logo sua saúde trabalhando a semana inteira e dando, ao todo, cerca de sessenta aulas ou mais. O resultado desse enorme esforço físico e intelectual produz dois problemas: perda da saúde e queda de qualidade de suas aulas. Onde iria preparar as aulas, preparar e corrigir provas, atualizar-se em seminários e cursos de pós-graduação? Só uns poucos conseguem superar tremendas dificuldades. Não me envergonho de afirmar : fui um exemplo desse tipo de professor.
Sei de exemplos de professores que, desejando fazer contrato de aluguel, passaram por constrangimentos quando mal anunciavam ao “senhorio” a profissão que exerciam. “Professor?!” dizia o energúmeno. “Nada feito. Não alugo pra professor, vocês não têm renda compatível.. Vão morar na periferia!” Vergonha nacional para um país que dá as costas ao professorado, não o valorizando, como seria de esperar de um país sério que cuida bem da sua educação.
Ontem, vendo um canal de TV, me deparei com um comovente protesto de uma muito jovem professora do estado de Alagoas. Seu nome: Amanda. Com um “pitoresco” sotaque nordestino, como diria o romancista Érico Veríssimo(1905-1975), a professora, diante das câmeras, expõe com veemência e justa indignação a atual situação da vida de um educador brasileiro no seu estado natal e, por extensão, no país inteiro.
A fala de Amanda, que também se veiculou no vasto circuito da Internet – esse é o lado bom e democrático desta mídia -, foi um eloquente apelo às autoridades brasileiras a fim de que responsáveis mais imediatos para assuntos da educação promovam uma mudança substancial e definitiva no que tange à questão dos salários dos professores estaduais e municipais.
Nessa conjuntura, o governo federal tem a obrigação de, junto com as autoridades estaduais e municipais, equacionar, em curto prazo, melhorias aos docentes, a começar pela implantação de planos de carreira que não fiquem no papel mas que sejam logo postos em prática e tenham continuidade, reajustando-se periodicamente de acordo com os aumentos concedidos às demais categorias de funcionários públicos a fim de não perderem seus ganhos reais e nem fiquem novamente defasados em situações de aumentos decorrentes de inflação.
Todos os segmentos interligados ao Ministério da Educação (MEC), os governadores e prefeitos, os representantes da classe dos professores em toda a Federação, assim como o poder legislativo estadual e municipal, têm o dever cívico de buscar uma saída honrosa para tratarem da deplorável situação do ensino fundamental e médio quanto à questão salarial dos docentes e da sua valorização ante a sociedade. No governo federal, o ensino público, sobretudo no segundo mandato do presidente Lula, conseguiu dar maior dignidade à carreira do magistério, sobretudo valorizando os professores empenhados em adquirir maior qualificação através de cursos de alto nível como os de mestrado e doutorado.
A professora Amanda, pela atitude corajosa e patriota demonstrada, serve de modelo de profissional que não se cala diante do descaso de sucessivos governos estaduais e municipais, inclusive os que estão cumprindo os atuais mandatos, que pouco têm feito pela carreira do magistério. Tais governantes ainda não se conscientizaram de que sem uma educação de qualidade e com professores estimulados e competentes, o país não dará nunca nenhum salto importante em direção aos seus projetos de se tornar uma potência mundial nos diversos setores de atividades : na ciência, na tecnologia, no aperfeiçoamento da mão de obra, na demanda por profissionais competitivos que estejam em condições de responderem às exigências de um mundo em constantes mudanças. Vejam o que ocorreu com países desenvolvidos como a China e o Japão, países que deram prioridade ao ensino e à educação de seus filhos.
A jovem professora Amanda relata um fato lamentável sob todos os aspectos e que ainda mais sujeita o docente brasileiro à humilhação. Contou ela que um promotor público da sua cidade achou absurdo que professores de escolas publicas sejam beneficiados com a merenda escolar destinada aos alunos. A atitude do promotor peca por duas razões: a) revela um sentimento de mesquinharia do ponto de vista de humanidade que deveria antes nele prevalecer; b) não atenta para a circunstância de que o professor brasileiro, pessimamente remunerado, muitas vezes não tem condições e mesmo tempo de fazer suas refeições fora da escola devido à exiguidade dos horários. Não são algumas refeições a mais que comprometeriam a merenda escolar. Por que não tem esse promotor a coragem de reclamar que militares, em serviço nos quartéis, tenham direito à alimentação? Ou por que os governos estaduais e municipais não concedem ao docente vale-transporte e vale-refeição, como faz a iniciativa privada? Ele, o promotor, age assim porque tem seu excelente salário e não sofre as agruras e aflitivos percalços do desvalorizado professor brasileiro.
O discurso inflamado de Amanda, acredito, transmitido pela imensa audiência da WEB, há de ser, conforme ela própria acentuou, com a grandeza e a esperança peculiar aos jovens, uma pequena semente que com certeza frutificará sensibilizando nossas autoridades de ensino e da educação.
É mister ressaltar, com todo vigor, que verbas existem para a educação. Se não as houvesse, não teríamos passado pelo desprazer e pela decepção de tomar conhecimento ultimamente de dois clamorosos desperdícios do dinheiro público: os milhões destinados ao chamado “Kit Gay” e outros milhões custeando livros didáticos que ensinam jovens e adultos a não terem o direito de acesso à norma culta da língua portuguesa.

http://asideiasnotempo.blogspot.com/search?updated-min=2011-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2012-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&max-results=43

Intelectuais Fluminenses prestigiam Marco Lucchesi

A presença de Marco Lucchesi na Academia Brasileira de Letras é um fato para ser intensamente festejado. Não por falar 18 idiomas e ter se tornado o mais jovem acadêmico da ABL, mas por ser, acima de tudo, um intelectual honesto, sem jaça, terno e humilde, a par de brilhante poeta, ensaísta e tradutor. Para nós, fluminenses, é motivo de grande orgulho ver chegar ao olimpo da intelectualidade brasileira um concidadão de Itacoatiara que não esconde o reconhecimento pelas influências recebidas na atmosfera do Calçadão da Cultura, de Carlos Mônaco e sua Livraria Ideal, e do meio literário de Niterói, cidade em que vive desde os oito anos de idade.



Acho difícil encontrar outro escritor brasileiro impregnado da universalidade de Marco Lucchesi. Parece haver compreendido desde cedo, em toda a sua amplitude, o conselho de Tolstoi: “Para ser universal, basta cantar a sua aldeia”. Lucchesi cantou muito mais do que a sua aldeia, tendo passeado ao longo de sua carreira literária por fascinantes caminhos da Europa e do mundo árabe, cujos mistérios parecem tocá-lo profundamente. Porém, sem jamais perder a identidade e o vínculo com a terra que o entreteu, como deixou claro nos agradecimentos ao final de seu discurso de posse na ABL ao lembrar o apoio dado, no início de sua jornada, por Alberto Torres, de O Fluminense, jornal em que publicou seu primeiro artigo, aos 15 anos.



A intelectualidade fluminense prestigiou em grande número e incontido júbilo a posse de Lucchesi na ABL, na última sexta-feira. Lá estava Carlos Mônaco, acompanhado de Roberto Kahlmeyer-Mertens, organizador do livro Conversações com intelectuais fluminenses, com depoimento do próprio Lucchesi, a ser lançado brevemente pela Nitpress. Presentes também Nina Rita, proprietária do jornal O Fluminense; os presidentes do Cenáculo Fluminense de História e Letras, Júlio Vani, e da Academia Niteroiense de Letras, Márcia Pessanha; o artista plástico Israel Pedrosa e João Cândido Portinari, curador da obra de seu pai, o grande Portinari; e vários outros jornalistas, escritores e artistas.



Registro a seguir alguns momentos daquela noite marcante, vários deles clicados por Aldo Pessanha. Outro registro fotográfico da noite, mais completo do que este, pode ser visto no ótimo blog Literatura-Vivência, de Kahlmeyer-Mertens. Recomendo, ainda, a leitura do artigo de Faustino Teixeira sobre Lucchesi no blog Diálogos.




Livros de Filosofia


KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Filosofia Primeira - Estudos sobre Heidegger e outros autores. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 2005. pp. 180.



KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Tempo e caminho - Fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Publit, 2006. pp. 80.



KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Verdade-Metafísica-poesia. Niterói, Nitpress, 2007. pp. 100.



KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Opúsculos. Niterói: Nitpress, 2008. pp. 55.